“E para mim muitas vezes esses homens e mulheres
passam sem testemunhar as verdades da vida
e andam correndo atrás de coisas falsas,
e para mim são muitas vezes pessoas
que pautam as suas vidas por um hábito
que a elas foi imposto, e nada mais.”
Walt Whitman – Leaves of Grass

 

Corredores, queiram aproximar-se da linha de partida. Antes da largada gostaria de dedicar-lhes algumas palavras e também desejar uma competição justa a todos: àqueles em que falte o talento da corrida, e portanto precisam dobrar o esforço, àqueles que correm por prazer, e que fazem do suor sua motivação, e àqueles que aqui apareceram com objetivo de ocupar espaço. Que todos tenham o prêmio que merecem.

Se por acaso você não é chegado em transpiração, espero que se auto-classifique como integrante do terceiro grupo que citei, que esteja de passagem e que não tenha acumulado muitas expectativas de vitória para o dia de hoje. Aliás, acho que deveria procurar algo mais útil com o qual ocupar seu tempo, quem sabe algo que você realmente goste de fazer. E caso ainda não tenha descoberto seu real talento, vamos combinar que se você não gosta de suar sua praia não é correr. Descarte esta opção e procure outra coisa, vá por mim.

Caso você seja o nosso esforçado atleta, aquele que treina com afinco todo santo dia e apesar de detestar levantar cedo ainda sim o faz em nome do desejado troféu, que de quando em vez tem desejos fulminantes de largar essa vida e fugir para qualquer lugar em que possa fazer o que realmente gosta – tricotar – vá me desculpar. Você não é muito diferente do nosso companheiro que não gosta de transpiração. A diferença entre vocês, talvez não perceba, é que – pior – você sabe o que te faz feliz, mas resolveu se iludir achando que deve porque deve vencer esta corrida. Você e o nosso outro corredor não estão na área certa, com certeza. E só porque precisa rever seus planos isso não faz de você um fracassado. Diga, de que vale tanta luta por um propósito que nem é seu? Como pode deixar sua verdadeira paixão de lado desta forma? Vá tricotar e viver no mato, que a vida é muito mais que provar para si e para os outros sua capacidade de ganhar um reles troféu.

E, finalmente, se você corre porque correr faz parte de sua vida, se é isso que mais motiva seu despertar a cada nova manhã, parabéns meu colega. Você é o único que está sendo verdadeiro consigo mesmo. E você sim, será vencedor. Não porque vá levantar o troféu, mas porque sabe tanto quanto eu que – se danem – o que mais vale é sentir o vento cantando ao pé do ouvido.

Mas quê estou falando, demos a largada! E que vença o que faz e se dedica por amor.

Que comece a corrida!

“Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente.”

Martha Medeiros

Era algo no movimento daquela estação, nas pernas deslizando apressadas, neste jogo de partida e chegada que jogamos sem distinção certa de seu começo ou fim. Algo nas mãos suadas, medrosas, prestes a deixar e serem deixadas. Algo nas bocas cerradas, no silêncio de quem sabe que não há mais o que dizer e engole o não dito para o fundo do estômago. Algo nos olhos transparecendo o que os lábios não ousavam dizer. Na estação que caminhava enquanto o tempo, por pena, permitia que os segundos se alongassem para aqueles dois pares de olhos em despedida.

 Algo nos olhos dela, janelas em que há muito tempo ele deitara as flores de seu carinho. Aqueles olhos negros, mergulhados na ânsia de quem espera com esperança um único pedido, uma última súplica – não vá… – para entregar-se em um salto e deixar que a partida pegasse o trem sem ela. Algo nos olhos dele, um quê de tristeza tímida liquidificada em água salgada brotada do canto do olho, misturava-se à fraca firmeza que o levara a não questionar a decisão do destino. Que se fosse o melhor para ela, assim deveria ser.

 E o trem cortou o vento, que quis levar consigo os cabelos de quem esperava para entrar nos vagões. Os pés deslizantes afastaram-se da linha de segurança amarela que cortava o chão, enquanto as janelas passavam cada vez mais lentas diante dos olhos. Ela apertou ainda mais os dedos por entre a alça da mala e tentava inutilmente forçar um sorriso.

 E com o abrir das portas ele pegou-lhe a mão, olhando aqueles dedos finos que afagaram seus cabelos em outros tempos. Levantou os olhos molhados e puxou-a com força para perto do seu corpo uma última vez. Apertados, sufocados em saudade premeditada.

Em um impulso aquela que ia virou-se e os passos foram pesados a cavar sua cova ao chão. As costas a se afastarem foram guardadas como última lembrança entre tantas que ainda doíam nele por não partirem com ela. Costas que passaram pela porta do vagão sem virar uma única vez, abandonando a estação e aquele por quem mais lhe doía a ida.

E foi ela, a partida, quem empurrou o vagão pelos trilhos lentamente. Quem fica para trás há de seguir em frente, encontrar outras janelas para deitar suas flores e amores, ou quem sabe plantá-los em seu próprio jardim. Quem parte há de desembarcar numa nova estação onde seu novo amante, o destino, a espera ansioso com suas cartas na manga.

Sentada agora em uma das várias poltronas frias, ela era apenas um rosto a mais entre tantos outros, coreografando movimentos a cada curva ou imperfeição dos trilhos. Todos iguais, nada de novo, nada de mais. O vento que entrava pela fresta da janela veio lamber seu rosto e deu em seus lábios amargos o beijo que ela deveria ter dado em quem ficou. O sol matinal fez do vidro da janela um espelho e as lembranças reuniram-se no fundo daqueles olhos úmidos refletidos diante dela: neles o resumo da vida até aqui. Ela olhava o horizonte à sua frente, tentando inutilmente não pensar naquele que deixou para trás.

Resta-me agora ocultar o rosto
P’ra que não vejas do desgosto
Mais sinais.
 
E se a lembrança agora turva,
É que a partida
Foi-se escondida pela curva
Do trem.
Adeus, meu bem.

“Gosto quando olho pra você.
Gosto mais quando seu olho vem
Na direção do meu.”

Seu Olhar – Paulinho Moska

Tuas eternas e ternas
bolitas pintadas de azul-
celeste, são meteoro
penetrado em minha retina.

(Ai, quando essas bolitas bonitas
se encontram nas minhas…)

No segundo fracionado
em mil m’embala,
sublima toda resistência,
destrói minh’armadura
de cima a baixo,
por dentro e fora:
deixa-me nua
e torna-me tua.

(É quando salto de leve
e mergulho em teus olhos.)

O gume em dentes de aço
cravado na carne macia
precede o beiço aberto
donde a vida liquida d’alma
verte em púrpura lágrima espessa.

Dor,
abre a fenda da fragilidade humana
e cobre com manto rubro
nossos crânios desnudos.

(Que em seu cárcere
rangem ossos, pulsam peitos
e conceitos quebradiços.)

Sangue,
vida que irriga o olho,
morte da visão que cega.
Faz da navalha tingida
o alarme: grita
que a alma provém da carne.

Vida,
deslumbra-me com tua ciência,
que de ti sou mera consequência.

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Os  pés amassavam a grama verde de verão, enquanto crianças eram gargalhadas correndo atrás umas das outras pelo parque central. E lá estava Joana, com suas bochechas vermelhas e cabelos úmidos, experimentando a liberdade que aprenderia a reprimir com os anos – mas isso é outra história.

Como era bom sentir o vento refrescando a pele quente, senti-lo gelado no suor da nuca e no couro cabeludo. Gostava de ser assim, moleca dos pés sujos, não como aqueles debaixo da sombra, fugindo do sol. E ela corria entre outros moleques na tarde de céu azul.

Foi se esconder de trás da árvore mais distante que seus pés alcançaram, para recuperar o fôlego sem pagar prenda por ser pega. Sentou então na grama fria de sombra, que espetou suas canelas finas, e aconchegou-se no tronco da árvore, acalmando a respiração afoita. Foi quando viu acima de sua cabeça, pendurada por um filete de galho,  uma vermelha e suculenta maçã. E como a correria abrira seu apetite, ela levantou-se para tentar agarrar aquela que brilhava distante, entre saltos e braços esticados, mas não chegava nem na metade do destino, era pequena demais.

Ela então ficou lá, sentada com as pernas esticadas, admirando a inatingível maçã. Pôde sentir seu doce no canto da boca e ouvir os dentes mastigando sua crocância refrescante. Ela salivava com seus olhos fechados, quando o vazio entre os dentes entristeceu o coração. De que valia sonhar se não a teria em mãos? Para que existiam então, se não podiam ser desfrutadas por outra além da imaginação?

“Talvez existam só para sonharmos com elas.” E ela debruçou sua cabeça no tronco da árvore, calada, olhando os fios de sol que vinham do meio das folhas da macieira. Foi quando um suspiro trouxe consigo lembranças  do menino vampiro de tempos passados. Aquele que um dia a embalou numa dança de festa à fantasia, aquele que chegou com a canção, mas que também partiu com ela. Percebeu então que não era apenas sobre maçãs. Era sobre tudo que ainda não tinha.

- Te peguei! – gritou Clarice.  Joana pulou assustada, numa volta brusca ao mundo real, enquanto via a amiga, já sumindo de sua vista, voltando para perto das outras gargalhadas. E lá foi ela então, juntar-se a elas. Não antes de dar uma última olhada para a velha macieira.

Chegando em casa, Joana logo foi dizendo a mãe que precisava de madeira, muita madeira. Quando a mãe perguntou-lhe o motivo para tal, ela disse com um sorriso de orelha a orelha que precisava construir uma escada para catar umas maçãs.

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Meus pés andavam distraídos pelas ruas na tarde do dia nove. Um dia banal para aquela cidade, que mecanicamente acordava e arrastava-se pelas horas na espera do seu fim, para daí então levantar de novo já ansiando o final do próximo dia. Mas hoje é dia nove, os pés sabiam que era, e perambulavam pelo dia de brincar de esconde-esconde com o tempo.

Ah, o tempo. Ele que foi dez, enquanto queria doze. Que mais tarde foi doze, quando eu já esperava pelos quinze. E nessa brincadeira eu não escondia-me apenas do tempo, mas também de mim. Eu, que nunca estive lá realmente. Nunca tive dez, doze ou quinze. Da vida sempre fui mera observadora, coadjuvante de mim. Agora lá estava eu, espantada com o tamanho dos meus pés perambulantes, perguntando onde foi que estive que não me vi crescer.

Foi quando a vi de longe, atravessando a avenida com elegantes passos de salto alto. O vento agarrava-se nas pontas do seu casaco e dos seus longos cabelos escuros, enquanto os três dançavam ritmados pelo andar daquela que se dirigia para o meu lado da calçada. Linda. O brilho dos seus olhos, se via de longe, refletia segurança e mistério com um sabe lá o quê de gente vivida. Era mulher, não simples projeto como eu.

E seus passos alinharam-se aos meus. Seu olhar tornou-se flecha riscando o ar, acertando o fundo dos meus olhos e arrepiando a espinha. Os passos tendiam ao encontro, mas como nos sonhos em que corremos sem sair do lugar eles não se aproximavam. Ela era o oásis e eu o viajante do deserto, que mesmo apressando o passo não conseguiria diminuir a distância entre os dois.

Então ela parou, com o salto alinhado e as mãos nos bolsos, e pela primeira vez seus confiantes olhos tocaram o chão, séria. Naquele momento meus pés aquietaram-se também, enquanto ao nosso redor uma estranha penumbra começava a envolver o ambiente.

E devagar ela levantou a cabeça, com seus olhos fixos nos meus, agora esboçando um sorriso malandro no canto dos lábios. De repente a mulher atravessou o ar como a flecha que antes eram apenas seus olhos. Rápida como o vento, ela veio em minha direção, enquanto sua fisionomia perdia-se entre cores por conta da velocidade. Meus dentes trincaram, fiquei estática. Fechei os olhos pouco antes do encontro e a senti como lâmina perfurando o peito, vazando pela coluna. O ar tinha me abandonado. Um milésimo que durou a eternidade. Abri os olhos e um gemido de dor escapou-me pela boca. Bebi então o ar como quem acabara de ser salvo de um afogamento, com as mãos segurando o peito.

Aos poucos a velha tarde do dia nove tomava novamente o seu lugar na penumbra e voltei ver a calçada silenciosa e vazia, não fosse um pequeno embrulho parado à minha frente. Olhei por entre as mãos o peito, o alvo, enquanto os batimentos equilibravam-se. Nenhum sinal do choque. Lá estava eu sozinha na calçada de uma rua deserta, frente a uma pequena caixa ao chão. Tomei-a nas mãos, enquanto recompunha as forças.

- Ei, você.

Pulei assustada, e vi atrás de mim uma menina. Reconheci seus olhos, aqueles das antigas fotos de família. Atormentada pelo incidente anterior, duvidei dos meus olhos enquanto eles mostravam a mim, dez anos mais jovem. E ela, eu, disse entre um sorriso juvenil:

- Dou-te teus vinte anos embrulhados em papel do presente, não brinque mais comigo – e o sorriso sapeca aumentara-lhe as covinhas – Procure o centro da gangorra ao invés de suas beiradas e quem sabe poderá ver-se de frente algum dia.

- Mas quem é você? – Perguntei.

E o pequeno sorriso foi-se indo a medida que falava:

- Sou aquele que percorre o teu corpo e as folhas do Outono, sou as rugas de um pé recém-nascido e dos olhos de um velho. Estou nos ossos, nos rostos, nas unhas. Passo diante de ti e penduro-me nas pontas dos teus cabelos. Estou no teu pé, no pé da mesa e no pé de limão do jardim. Nas palavras que transcorrem até o ponto final. O ponto que foi, o que está e o que há de vir. Sou quem dá e quem tira. Sou a caveira, a foice e a primavera - faz uma pequena pausa - É estranho não é? Enquanto tu olhas com espanto o retrato antigo frente a um espelho sem me entender. Mas siga meu conselho e receba o presente. O centro da gangorra. Ninguém sabe o que virá.

Dizendo isso, a menina e seu último sorriso deram-me as costas, indo embora entre saltos, dobrando a esquina. E lá estava eu sozinha novamente, sem conseguir pensar. Foi quando me lembrei da pequena caixa que segurava nas mãos. Quando abri percebi que nada havia no seu interior, mas pouco importava, tinha entendido o recado. O presente, meu presente de vinte anos.

E assim continuei minha caminhada pela cidade que jurava que hoje era um dia banal. Tolos, todos.

Escrevi ouvindo isso.

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Eles haviam debochado de sua fantasia de joaninha, aquela que com tanta empolgação escolhera, aquela que estufara o peito com orgulho ao ver-se vestida uma hora antes.

- Joana de joaninha, vovó, Joana de joaninha! – Dizia alegre enquanto pulava pela casa com suas novas asas e antenas acompanhando sua dança desengonçada. A alegria era tanta que não cabia no peito, era ela fogos de artifício preenchendo o seu corpo todo. E ela pulava, só para sentir as asas batendo nas costas.

E agora lá estava Joana, escondida em um dos cantos do salão de festas, enquanto a vergonha escorria discreta pelas suas bochechas vermelhas, borrando-lhe a tinta guache. Tola Joana. Que atrevimento pensar que merecia tal alegria. Não, ela não. Mas por que eles a mereciam? Aqueles que sem um pingo de compaixão arrancaram-lhe o sorriso para enfia-lo em seus rostos, por que eles mereciam? Inconformada, amassando as antenas que deveriam enfeitar a cabeça, perguntava-se se a teria algum dia.

Foi quando ele apareceu, tirando a cartola aveludada com a mão esquerda e estendendo a outra, em um chamado para a dança. Espantada, ela olhou o menino drácula à sua frente que fazia-lhe reverência com um sorriso nos lábios e nos olhos.

- Não vai deixar que eles estraguem sua noite, vai? – e ele esticou ainda mais a mão na direção da pequena joaninha.

Um completo desconhecido. Gentil, ela não podia negar. Havia algo nos olhos por detrás daquela maquiagem e fantasia antiga, nem ela saberia dizer ao certo o que era, que fez com que as suas lágrimas secassem. Ela esfregou o nariz vermelho e molhado, olhando confusa para o menino, que não mudara nem o sorriso, nem a reverência. E algo fez com que a mão dela deslizasse até a dele.

As mãos se tocaram. Quando ele a puxou, ela achou que suas pernas não ficariam de pé – é que a alegria quando abandona o corpo deixa as juntas fracas. Mas ela apoiou-se nele e aos poucos a força voltava junto com o embalo da música. And I can’t make it alone, eles diziam.

E de repente a tristeza evaporou-se. Ela descançou seu cansaço naqueles pequenos ombros, encostando o nariz gelado em seu pescoço. E assim dançaram, os dois desconhecidos que por alguma razão não eram tão desconhecidos assim. E ela sorriu enquanto ele apoiava a cabeça na sua, fazendo-o rir também. E de repente pouco importava o ontem ou o amanhã. O antes e o depois já não lhe perteciam, e mesmo assim ainda estava tudo bem, pois naquela noite ele a tinha salvo – e isso por si só bastava.

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Era noite, só a percebi quando a falta de luz irritou os olhos e foi necessário o abajur para sanar o desconforto. Distraída segurava Cecília no colo, tentando prestar atenção à suas palavras – o que nunca fora tão difícil. Tentava inutilmente manter a cabeça pregada ao pescoço, mas lá estavam os olhos percorrendo mecânicos as palavras sem guardar absolutamente nada. Eu era uma incompetente, incapaz de dominar o próprio pensamento. E ele ria de mim, o bandido, ria da minha desgraça.

Paro a leitura para buscá-lo de volta. Respiro fundo. Sei por quais ruas ele tem passeado saltitante nesses últimos meses. Sei para que lado devo esticar o braço para alcançá-lo. Peguei! Rápida, enfio-o na cabeça e mantenho as mãos nela, como se pudessem impedir que fugisse de novo. Inútil. Desisto, e desabafo: o que está fazendo comigo, rapaz?

Que fez com meu pensamento? Apoderou-se do que é meu por direito, que agora escorre de mim e chega a ti sem pestanejar. Ele não quer mais a mim, desdenha, mostra-me a língua, e corre – como corre – para finalmente descansar em teus ombros. Ele esperneia por ti. E eu, impotente, fico muda.

Fecho o livro, a quem quero enganar? Receio ser incapaz até disso. É quando ouço lá de baixo minha mãe chamando. Ufa! Um pouco de realidade finalmente. Levanto com as mãos no peito, receando que o ladrão de pensamentos o leve também. Mas algo em mim já sabia, era tarde demais.

Descendo as escadas ele começara a bater tão forte que doía-me as costelas. Agora pedia pelo ladrão, sabia disso. Sento-me e o coração puxa a barra da saia ao lado do sofá, era criança frente à loja de brinquedos. Chegava a suplicar, para que a pena me fizesse ceder. E eu, muda.

Eram dois contra uma.

E o tempo foi meu inimigo. O corpo acabou por ceder também, e pedia. A pele queria envolver-se da dele, não contentava-se mais com a solidão das quatro paredes do quarto. Meu corpo tinha sede, sede dele. Contorcía-se em sede. A boca ficava mais seca a cada noite, e nada poderia sacia-la se não a boca dele, se não os braços dele, se não o corpo dele. E eu, impotente, continuava muda.

Eram três contra uma.

- Não vai comer? – disse meu pai, olhando-me com um ar de extrema interrogação.

Um “tapa de luva” da realidade, lá estava eu na sala de jantar. O barulho dos talheres e dos pratos lentamente voltou ao ouvindo. Estava com o garfo entre a boca e o prato, talvez por isso o espanto de meu pai. Estava muda, estática – andara muda e estática esses últimos meses. O silêncio dos calejados, era ele que me acompanhava, que me fazia recuar diante dos meus três novos inimigos internos, que me fazia recear cada passo. O silêncio de quem vê a reprise de um doloroso filme do passado. E muda, temia por mim.

- Acho – disse lentamente enquanto afastava o prato – que perdi o apetite. – levantei e fui em direção ao quarto sem mais palavras.

Precipitada? Talvez.

Estava perdida, isso sim. Perdida de mim.

PE-070-0238

Clarice,

Realmente acreditei que meu olhos enganavam-me quando peguei sua carta no correio, imagine então a surpresa quando li – e tive de ler muitas e muitas vezes antes de escrever-te. Tive de fazer um resgate ao passado, não que havia esquecido-me de algo, mas muito tempo se passou, Clara, muitas coisas aconteceram desde então.

Sua carta chegou depois dela, depois da minha atual companheira. Ela, que me fez o homem que sou, que me deu risos e lágrimas e que consumiu de mim com o passar dos anos toda inocência. É a vida, doce Clarice, a amante que tem me acompanhado lado-a-lado desde que, ainda jovem, percebi que não teria você em minhas mãos, desde que as peças do quebra-cabeça se perderam.

Ela que, me consolando a princípio com prazeres momentâneos, consumiu lentamente a pureza que um dia tive. Essa que congela o coração dos homens também congelou o meu, minha cara. Nada na vida me surpreende mais, nada nela me motiva. Estou cansado, mas fadado a ela. Se me encarasse de frente entenderia ao olhar para meus olhos, veria o que ela fez de mim.

Mas não, não é o que desejo que aconteça. Quero que guarde o que fui enquanto éramos jovens, não o homem ranzinza que a vida me tornou. Pelo menos alguém lembraría-se do jovem Frank, aquele que está sozinho em alguma das sujas esquinas por onde meus pés pisaram durante esses anos. O que você procura não mais está comigo e sim perdido em um lugar qualquer, onde meus olhos não chegam, onde os olhos de ninguém chegam.

Receio que seja tarde, pequena Clara. Aquele que possuía as peças que faltam não existe mais. Espero que siga em frente e encontre alguém que possa ocupar o lugar ao seu lado no quebra-cabeça. Pois sim, a moça do vestido é você, doce mulher não congelada pela vida, e o homem ao seu lado é alguém que pode realmente dar-lhe aquilo que merece. E nada no homem que lhe escreve esta carta parece com isso.

Vá em paz.

Frank

casal sol

Querido Franklin,

Sei que deve estar surpreso, imagino que quando pegou esta carta na caixa de correio e viu quem era sua remetente não acreditou. Mas sou eu mesma, acredite ou não. Escrevo após esses longos anos para fazer-te um pedido, mas não antes de explicar meus motivos para tal.

Para isso é necessário que voltemos no tempo, mais precisamente na noite da festa dos meus quinze anos. Não sei ao certo se sua memória me ajudará, confesso que a medida que a idade chegou também tomou de mim muitas das lembranças, e não fosse o presente inusitado que o desajeitado “cara de fuinha” deu-me naquela noite, não tenho certeza se dele lembraria hoje em dia.

Diga-me quem, em sua festa de quinze anos, esperaria receber um quebra-cabeça, Frank? Sei que pouco adianta, depois de tanto tempo, pedir-te desculpas por ter debochado do seu presente, mas procure entender a cabeça de uma menina que dedicava-se a vaidades e bobices juvenis.

Aquela caixa ficou por muito tempo esquecida por detrás de bugigangas no armário do meu velho quarto de menina, confesso que não fiz questão nem de abrir. Surpresa tive eu quando, já moça feita, encontrei-a enquanto fazia as malas para viver pelas minhas próprias pernas. A caixa ainda estava fechada, Frank.

Quando abri, um velho bilhete foi ao chão. Com letras desengonçadas ele dizia: “Já que não posso te levar lá, trago ela pra ti”. Curiosa, a medida que fui montando o antigo quebra-cabeça, vi que tratava-se de uma praia. Meu sonho de menina era conhecer a praia, e você havia lembrado-se do que eu mesma passei a achar banal com o tempo.

Confesso-te que hoje, já mulher, levei meus pés à areia molhada e senti a brisa marinha nos meus cabelos diversas vezes. Mas praia como aquela da imagem do velho quebra-cabeça não vira em lugar algum. Era um paraíso. A medida que ia montando-o, o pôr-do-sol apareceu em um dos seus cantos. Ah… como era bonito! Mais tarde apareceu um pedaço do mar e o sol apoiou-se então no horizonte espalhando seu vermelho amarelado pelas águas cristalinas e pelo céu azul. Depois, em uma duna, dois pares de pernas um ao lado do outro, como que contemplando esse milagre da natureza. Tratava-se de um casal, percebi isso quando coloquei nela um vestido e um braço do outro rodeando sua cintura. Como seria bom estar ali, ainda mais assim, a dois. Naquele momento queria eu ser a moça do vestido. E assim, continuei juntando as peças.

E hoje escrevo-te esta carta pois faltaram-lhe os rostos, Frank. Não por desatenção minha, procurei as peças pela casa várias vezes. O quebra-cabeça estava incompleto. Não sei explicar-te minha compulsão por elas, algo em mim acordou quando percebi a preciosidade que havia jogando fora. Seria possível ter isso de volta?

Espero sua resposta.

Atenciosamente,

Clarice

p.s: as peças que faltam não impedem que transpareça o que poderíamos ter sido se meus olhos estivessem mais abertos na época.

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