Das coisas entre as quais acredito que todo ser humano deveria ter ao menos uma vez na vida – além de uma crise nervosa, de um porre, de um terapeuta e de um all star – recomendo, não menos convicta: tenham um professor excêntrico.
Pois é, eu mesma já tive vários. E engraçado como sempre parece nossa primeira vez. Seja professora de geografia – só sendo doida mesmo – distribuindo sementes de árvore para dar sorte e saindo de bicicleta pela cidade a gritar e pedir voto, como boa futura vereadora. Seja professor de matemática pedindo para que repetíssemos um sonoro “minha cabeça dói” a cada final de aula, e pra não falar dos apagadores voadores – não, a dor de cabeça não era culpa do apagador. Sejam lá quais dos tantos que tive, quando me vi formada, achei que não teriam dessas raridades na coleção universitária.
Ledo engano.
Recebi um presente logo no primeiro semestre, que já nos primeiros dias me perguntou:
- E você, é acácia ou eucalipto?
Segurei o impulso de corrigi-lo – é Car…men, tá na chamada – já que dizem que de doido a gente não discorda. Contentei-me em fazer cara de paisagem e esperar sua reação.
Sabe qual a diferença entre uma acácia e um eucalipto? Pois imagine o eucalipto como um big boss que suga boa parte da água do solo ao seu redor e impede que outras árvores cresçam perto dele. É o individualista da floresta, aquele que coloca sua sobrevivência no topo da lista de prioridades. Não quero com isso desmerecê-lo, pois a independência é para poucos. Já a acácia é a mãezinha caseira que abre as portas do sobrado para a comunidade e diz que não tem problema não, sua carreira não é tão prioritária. Acácia é árvore para casar, minha gente, dessas que colocam a família em primeiro lugar.
Simbologias à parte – muitos diriam que fracas – acredito que todos entenderam o impasse. Mas ainda sim, e agora ainda mais convicta, não sabia o que responder.
- Acho que sou um pouco dos dois.
Exato, era isso que ele não queria que eu respondesse. Exatamente porque é isso o que todo mundo responde – sei que pensou o mesmo que eu, não precisa disfarçar.
Mas o que há de errado em ser os dois, oras? Posso muito bem levar minha vida eucalíptica em paralelo à acaciana. E não me venham com a história dos dois passarinhos voando que árvore não tem mão, não senhores.
Ser um pouco dos dois, seria possível? Um acacialipto? Uma eucalipcácia?
Sim, podemos sê-los, se você quiser ser feito de plástico e morrer sem nunca descobrir o que é ser algo por inteiro. Eucalipcácias existem pela covardia que temos ao ter de decidir por um caminho apenas, e renunciar ao outro por conseqüência. Por medo de assumir a responsabilidade e o peso de uma escolha, de uma postura.
Só podemos ser a partir de uma renúncia.
E você, é acácia ou eucalipto?
…
Serve uma macieira?

26/03 at 10:07
Escolhi ser eucalipto por um tempo, será que depois posso ser acacia???
01/04 at 04:34
Nao escolher, é escolher tambem.
Prefiro nao me meter com flores. Digamos que sou playmobil enquanto que outros sao legos.
Bem escrito!FINALMENTE abdicou da melosidade! =P
com afeto