Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha.Olavo Bilac - Nel mezzo del Carmin
Acorda, Gaspar!
Um susto e aterriso pra dentro do corpo, puxado pelas pernas. Demoro os olhos em Frank - o tempo pra cabeça voltar - e ali está ele, à minha frente, com a última e única frase que lembro do seu discurso. Que se dane, tinha a desculpa da bebida caso ele se ofendesse. Mais por hábito que por arrependimento ensaio me desculpar, o que ele antecipa com os olhos, já entupidos de etílico: deixa pra lá, seu idiota. Engulo as desculpas com o resto da vodca. A frase que me trouxe ao chão ecoa.
Acorda, Gaspar!
Acordar, quem dera. Sinal de que teria conseguido dormir - e tá aí algo que não faço direito há dias. Fosse apenas o sentido literal que afundasse as olheiras, fácil fácil entupia as ventas de comprimidos e pronto: acordaria novo em folha, sem as olheiras de dentro. Mas quando corpo e alma não se entendem, um anseia o travesseiro e a outra não deixa assentar a cabeça. E eu aqui, patético, enganando mais uma noite num boteco de quinta.
O último gole queima, bato o copo na mesa e levanto - preciso de ar. Meu camarada, já distraído com as vadias, nem repara minha saída. Abro caminho entre os ombros - droga de aglomerações – nado até a margem e finalmente chego à beira. O ar fresco da madrugada gela o peito. Procuro o tabaco, pra esquentá-lo. Ando até o banco de madeira perto do bar. Sento. Merda de noite, cadê o isqueiro?
Afundo as costas no banco, deslizo a bunda na madeira fria. Achei o maldito, no bolso da calça. Achei o maldito, repito. Que ironia. Fui achado também. Acendo o cigarro, e lá vai o fogo ser perdido de novo no fundo do bolso. Rio de mim – que idiota - e a fumaça escapa. É o que dá, Gaspar, brincar de gato e rato com o tédio. Quando ele te encontra, só resta rir. Rir e bolar uma nova agenda noturna pra escapar novamente. Pra voltar ao fundo do bolso de um jeans velho.
Tivesse bebido um pouco mais, juraria ter me visto jogado no meio-fio à minha frente, tamanha minha miséria. Teria apoiado a cabeça neste poste que mal ilumina a rua e assim caído eu estaria. Fraco e medíocre. E entediado. Mais uma tragada. Olho de novo o poste. Tá, já pode sair daí, nem bebi tanto assim. Espero a imagem se desfazer da mente e dos olhos - o que não acontece. Esfrego o rosto com a mão livre. Tinha realmente alguém ali, e menos mal que não era eu.
Largo de lado o cigarro e encaro a moça apoiada no poste- ou as costas dela. Não via muito, a merda da luz não ajudava em nada. A cabeça, apoiada, não se movia. Os olhos nas estrelas, parecia. Apertava os joelhos ao redor dos braços. Frágil e medíocre.
Engraçados, os tapas da vida. Eu, um nada, um merda fugindo do próprio tédio. E existiria algo menor que a enquadrasse?
Respiro fundo, vou ao poste.
- Dia difícil? – paro com as mãos no bolso.
Tomou um susto, ela. Como o que tive há pouco, lá no bar. Como se os olhos, antes nas estrelas, tropeçassem em terra firme. E eu rio, culpado por trazê-la de volta. Me olhou séria – por mais tempo que gostaria, essa troca de olhar. Virou o rosto, o nariz para a rua:
- Nem imagina…
- Cigarro? – me antecipo, estico o braço com o maço em mãos. Testo o limite de proximidade, sabe como são as mulheres. Apruma o corpo fraco, estica o braço fino. Procuro o isqueiro do bolso, e o safado agora me vem fácil. E aqui está ela, iluminada pelo final de seu gás. Que diabos fazia ali?
- Gaspar – Sento ao seu lado, no meio-fio.
- Que?
- Sabia que ia perguntar, então me adianto – conversinha mais manjada – Sou Gaspar.
- Ah… – pausou o olhar, levou o cigarro à boca. Respirou e virou para mim. – Anita.